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Close-up das pernas em agachamento profundo com joelhos sobre os dedos em plataforma de madeira

Knees Over Toes / ATG: Cada Afirmação Verificada

· Chris · 9 min de leitura

“Os joelhos não podem passar os dedos” — todo mundo já ouviu essa frase ao entrar numa academia. Ben Patrick, conhecido como @KneesOverToesGuy, construiu um império a partir disso: milhões de seguidores, um programa de coaching online (ATG), equipamento próprio e uma mensagem polarizadora.

Mas o que é ciência e o que é marketing? Este artigo verifica as afirmações centrais, uma por uma.

Quem é Ben Patrick?

Ben Patrick é um coach de fitness americano e criador de conteúdo digital que desenvolveu o programa ATG (Athletic Truth Group). A história dele: Graves problemas de joelho desde a juventude, várias cirurgias, o prognóstico de que nunca praticaria esporte a sério. Através do seu próprio sistema de treino teria “curado” os joelhos e hoje pode saltar sem dor.

A história é impressionante — mas é uma anedota n=1. Sem documentação médica, sem estudo controlado. Isso não a torna falsa, mas não é evidência no sentido científico. Vamos olhar então para os componentes individuais do programa dele.

As Afirmações Centrais — Verificação de Evidências

1. “Joelhos sobre os dedos é seguro” ✅ Evidência forte

Esta é a mensagem ATG mais conhecida — e está correta.

Schoenfeld (2010) analisou a biomecânica do agachamento e demonstrou: Restringir artificialmente o movimento dos joelhos transfere a carga para quadris e coluna lombar. Deixar os joelhos avançar não é perigoso — é biomechanicamente natural.

Hartmann et al. (2013) confirmaram numa revisão sistemática: Os agachamentos profundos não são prejudiciais para joelhos saudáveis. A compressão nos ligamentos cruzados em profundidade até diminui, porque a panturrilha e a coxa se tocam e absorvem a pressão (“Wrapping Effect”). A maior carga retropatelar ocorre a ~90° de flexão do joelho — ou seja, em meios agachamentos, não em profundos.

Conclusão: ATG tem razão aqui. O velho mito está há muito refutado — o ATG apenas o popularizou eficazmente.

Ressalva importante: “Joelhos saudáveis” é a palavra-chave. Pessoas com lesões meniscais, artrose avançada ou após cirurgias ao joelho precisam de avaliação individual, não de uma receita universal.

2. “Agachamentos profundos são melhores que meios” ✅ Evidência forte

Bryanton et al. (2012) demonstraram: Agachamentos mais profundos aumentam a carga muscular relativa do Gluteus Maximus e dos extensores do quadril — ou seja, mais trabalho muscular, mais crescimento.

Schoenfeld & Grgic (2020) confirmaram numa revisão: O treino com amplitude de movimento completa gera mais hipertrofia do que ROM parcial. Pallarés et al. (2020) compararam agachamentos completos e parciais durante um período de treino — os completos produziram adaptações neuromusculares superiores e menos dor.

Conclusão: Quem agacha fundo fica mais forte e constrói mais músculo. Mas: Nem todo mundo consegue agachar fundo. A anatomia individual (profundidade do acetábulo, proporção fêmur-tíbia) determina a profundidade alcançável. A profundidade forçada com compensação (Butt Wink, flexão da coluna lombar) transfere o risco para a coluna.

3. “Nordic Curls previnem lesões” ✅ Evidência muito forte

Este é o elemento mais forte do programa ATG — e não é original do ATG, mas medicina esportiva estabelecida.

Al Attar et al. (2017) demonstraram numa meta-análise: Programas com Nordic Hamstring Curls reduziram lesões dos isquiotibiais em ~51%. Van der Horst et al. (2015) confirmaram numa RCT com ~580 futebolistas.

O mecanismo: O fortalecimento excêntrico dos isquiotibiais aumenta a sua tolerância à carga. Mjølsnes et al. (2004) demonstraram que os Nordic Curls aumentam significativamente a força excêntrica dos isquiotibiais.

Conclusão: Os Nordic Curls pertencem a qualquer programa de treino — independentemente do ATG. A evidência é de primeira qualidade.

4. “Marcha invertida / Reverse Sled cura joelhos” 🟡 Evidência moderada

A marcha invertida (Retro Walking) tem de fato vantagens biomecânicas:

  • Sem fase de desaceleração excêntrica como na marcha para a frente
  • Forças de reação do solo reduzidas — menos stress de impacto
  • Trabalho concêntrico do quadríceps sem alta compressão patelofemoral

Gondhalekar & Deo (2013) demonstraram numa RCT: O Retro Walking como complemento à fisioterapia melhorou a dor e a função na artrose do joelho significativamente mais do que a fisioterapia isolada.

Conclusão: O Reverse Sled e a marcha invertida são genuinamente úteis para reabilitação do joelho e como treino de baixo impacto. Não revolucionário — fisioterapeutas usam isso há anos — mas ATG tornou-o acessível a um público mais amplo.

5. “O treino do tibial previne dor na canela” 🟠 Evidência fraca

Aqui fica problemático. ATG vende uma “Tib Bar” especial e posiciona o treino do tibial como solução quase mágica para dores na canela e saúde dos joelhos.

A realidade:

  • Não existem grandes RCTs ou meta-análises que demonstrem que o treino isolado do tibial previne dores na canela (Síndrome de Stress Tibial Medial) ou lesões no joelho
  • A lógica anatómica é plausível — um Tibialis Anterior mais forte poderia funcionar como amortecedor
  • Mas “plausível” não é “provado”

Conclusão: O treino do tibial provavelmente não é prejudicial e pode ajudar algumas pessoas. Mas comercializá-lo como peça central da saúde do joelho está à frente da evidência — e coincidentemente o ATG vende o equipamento correspondente.

6. “Jefferson Curls são seguros e úteis” 🔴 Controverso

Os Jefferson Curls — flexão da coluna vertebral com carga — são o exercício mais controverso do programa ATG. Muitos especialistas em coluna e fisioterapeutas desaconselham-no, especialmente para pessoas com problemas de discos.

Conclusão: Para praticantes saudáveis e móveis possivelmente defensável. Para as massas a que ATG se dirige (frequentemente pessoas com dores e historial de lesões): relação risco-benefício pouco clara. Este ponto não é suficientemente abordado no marketing ATG.

A Tabela de Evidências

AfirmaçãoNível de evidênciaAvaliação
Joelhos sobre dedos = seguro✅ ForteCorreto. Biomecânica estabelecida.
Agachamentos profundos > meios✅ ForteCorreto para saudáveis com boa mobilidade.
Nordic Curls = prevenção de lesões✅ Muito forteCorreto. Melhor evidência no programa. ~51% redução de risco.
Reverse Sled para reabilitação joelho🟡 Moderada a forteFundamentalmente útil, não revolucionário.
Treino tibial = saúde joelho🟠 Fraca a moderadaPlausível, mas sem evidência forte. Sobrevendido.
Programa ATG cura joelhos🟠 AnedóticoSem estudos controlados sobre o programa completo.
Jefferson Curls = seguros🔴 ControversoArriscado para muitas populações. Insuficientemente abordado.

O Que ATG Faz Bem

Com toda a análise crítica: ATG fez realmente contribuições positivas.

  1. Refutou popularmente o mito dos joelhos — Milhões de pessoas treinam melhor agora porque ATG divulgou esta mensagem
  2. Tornou os Nordic Curls mainstream — Um dos exercícios com melhor evidência, anteriormente conhecido apenas no esporte profissional
  3. Propagou treino com ROM completo — Em consonância com a investigação (Schoenfeld & Grgic, 2020)
  4. Normalizou a marcha invertida como treino — Opção de baixo impacto para problemas de joelho

O Que ATG Sobrevende

  1. Treino tibial como peça central — A evidência é fraca, o equipamento é caro
  2. A história pessoal como prova — Anedota n=1, sem estudo controlado
  3. “Bulletproof your knees” — Nenhum programa pode prevenir lesões. Mesmo os Nordic Curls reduzem o risco apenas 51%, não 100%
  4. Abordagem One-Size-Fits-All — O coaching online não considera diferenças biomecânicas individuais, histórias de lesões ou contra-indicações
  5. Jefferson Curls sem aviso suficiente — A flexão da coluna com carga é contra-indicada para muitas pessoas

O Quadro Geral: Nada Disto é Novo

A maioria dos princípios ATG não é nova — é medicina esportiva bem embalada:

  • Agachamentos com ROM completo: Charles Poliquin propagou isso desde os anos 90
  • Nordic Curls: Estabelecidos na medicina esportiva desde Mjølsnes et al. (2004)
  • Marcha invertida: Ferramenta padrão em fisioterapia
  • “Joelhos sobre dedos”: Reconhecido como mito por biomecânicos há décadas

ATG processou estes conceitos para as redes sociais e alcançou milhões de pessoas que nunca teriam lido um especialista em medicina esportiva. Isso é mérito. Mas a afirmação de ter “descoberto” algo é exagerada.

Para Quem é Adequado o Programa ATG?

Adequado para:

  • Praticantes saudáveis que querem melhorar ROM e resiliência do joelho
  • Atletas que querem incorporar prevenção de lesões (Nordic Curls, Reverse Sled)
  • Pessoas com leves queixas no joelho que procuram opções de baixo impacto (com aprovação médica)

Não adequado como substituto de:

  • Fisioterapia após cirurgias ou lesões graves
  • Coaching individual em problemas biomecânicos complexos
  • Um programa de treino completo — ATG foca-se quase exclusivamente no membro inferior

Conclusão

ATG tem bons e maus aspectos. Os bons: treino com ROM completo, Nordic Curls, marcha invertida — tudo cientificamente fundamentado. Os maus: hype do tibial, risco dos Jefferson Curls, anedota como prova, marketing One-Size-Fits-All.

A melhor abordagem: adote os elementos cientificamente fundamentados (Nordic Curls, agachamentos profundos, Reverse Sled), ignore o hype (Tib Bar como panaceia), e consulte um médico de medicina esportiva para problemas reais de joelho — não uma conta de Instagram.

Se quiser entender em mais detalhe como a sua anatomia influencia a biomecânica do agachamento — incluindo por que a sua técnica deve ser diferente da de outros — leia Técnica de Agachamento: Por que a sua constituição física determina a execução.


Fontes

  • Hartmann H, Wirth K, Klusemann M (2013). Analysis of the Load on the Knee Joint and Vertebral Column with Changes in Squatting Depth and Weight Load. Sports Medicine, 43(10):993-1008.
  • Schoenfeld BJ (2010). Squatting Kinematics and Kinetics and Their Application to Exercise Performance. JSCR, 24(12):3497-3506.
  • Al Attar WSA et al. (2017). Effect of Injury Prevention Programs that Include the Nordic Hamstring Exercise on Hamstring Injury Rates in Soccer Players. Sports Medicine, 47(5):907-916.
  • van der Horst N et al. (2015). The Preventive Effect of the Nordic Hamstring Exercise on Hamstring Injuries in Amateur Soccer Players. Am J Sports Med, 43(6):1316-1323.
  • Mjølsnes R et al. (2004). A 10-week Randomized Trial Comparing Eccentric vs. Concentric Hamstring Strength Training. Scand J Med Sci Sports, 14(5):311-317.
  • Bryanton MA et al. (2012). Effect of Squat Depth and Barbell Load on Relative Muscular Effort in Squatting. JSCR, 26(10):2820-2828.
  • Schoenfeld BJ, Grgic J (2020). Effects of Range of Motion on Muscle Development During Resistance Training Interventions. SAGE Open Medicine, 8:2050312120901559.
  • Gondhalekar GA, Deo MV (2013). Retrowalking as an Adjunct to Conventional Treatment in Patients with Knee Osteoarthritis. North Am J Med Sci, 5(2):108-112.

Perguntas Frequentes

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